VIVA OS ERROS… DOS OUTROS!

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Um guia do que (definitivamente!) não deve ser feito na sua casa quando o assunto é automação de ambientes

Por: Marcelo Lavrador

Disse, certa vez, Eleanor Roosevelt: “aprenda com os erros dos outros, você não viverá tempo suficiente para cometê-los todos por si.” A verdade é que os erros são essenciais para o aprendizado. Porém, os mais sábios são aqueles que aprendem com os erros cometidos pelos demais. Logo, minha intenção, com este artigo, é beneficiar os que não fazem questão de aprender da pior maneira…

Muitos erros são denunciados por frases infelizes. Seguindo esta linha de raciocínio, listo, a seguir, algumas das piores frases relacionadas a projetos de automação residencial que já escutei.

“Depois que terminar a obra, pensarei em automação residencial”

Esta é bem comum. Neste caso, o céu não será mais o limite, pois as soluções precisarão ser adaptadas à falta de cabeamento estruturado. Um bom projeto de infraestrutura garante a possibilidade de, no futuro, instalar sistemas de automação e usufruir de todas as funcionalidades que estes proporcionam. A opção econômica é adiar o cabeamento propriamente dito, mas instalar, ao menos, eletrodutos, caixas de passagem e caixas de terminação. Também é importante reservar um local para onde os eletrodutos deverão convergir, permitindo a futura instalação de um painel. Este lugar deverá ser escolhido considerando-se a proximidade dos cabos referentes aos serviços que serão contratados, como TV a cabo, Internet, telefone etc.

“Construirei minha residência sem esta ‘preparação para cabeamento’, pois não ligo para automação residencial”

Quando alguém constroi uma casa, normalmente, pensa em morar nela por muito tempo. A evolução da automação residencial, nos últimos anos, indica uma tendência à conectividade entre aparelhos e subsistemas de uma residência. Fabricantes de equipamentos de áudio e vídeo estão se preo-cupando em desenvolver conversores de protocolo TCP/IP já embutidos em seus produtos, pensando na merecida aposentadoria dos controles infravermelho. Na mesma linha “futuróloga”, os mais simples dispositivos de iluminação terão outra forma de controle, além da pressão de um dedo, haja vista a quantidade de empresas preparando seus produtos para a onda da conectividade. Neste cenário – que, por sinal, já está se formando –, as residências que estiverem preparadas para automação serão cada vez mais valorizadas. Pode ser que nem assim você ligue para automação residencial, mas, se um dia quiser vender a casa, pode ser que a referida preparação faça uma enorme diferença…

“Comprarei o sistema de automação nos EUA e eu mesmo vou instalar”

Considere que os sistemas de automação profissionais (ainda) não são vendidos nas prateleiras do Best-Buy ou CompUSA, mas apenas a integradores credenciados, para revenda e instalação. Caso seja adepto do “Do it Yourself“ (Faça você mesmo), há opções interessantes baseadas em controles-remotos universais de alto padrão para controlar seus equipamentos de áudio e vídeo e até alguns subsistemas de iluminação sem-fio vendidos ao público. Porém, lembre-se que um dimmer de qualquer um destes subsistemas ocupa, necessariamente, uma caixa 4×2 por circuito (conforme exigência das normas americanas). Além disso, você não terá assistência técnica. Quando descobrir que não valerá à pena o tempo gasto para instalar, configurar e programar todos os dispositivos em algum aplicativo para iPhone/iPad, provavelmente terá dificuldade em encontrar um integrador que aceite trabalhar com produtos que não vendeu a você… A menos que o serviço seja muito bem-remunerado!

“Vamos evitar burocracia, não precisamos de contrato”

Este é um erro com incrível potencial de prejudicar tanto o morador quanto o Integrador. É importante existir um documento, assinado pelas duas partes, no qual se defina tudo o que será vendido, instalado e configurado, detalhando as respectivas funcionalidades. Este documento dará argumentos ao morador para exigir que o trabalho seja realizado conforme suas expectativas, ao mesmo tempo em que protegerá o integrador em relação à pressão para funcionalidades adicionais que não estavam previstas.

“Quero aproveitar os eletrodutos de energia elétrica para passar esses cabos”

Este é um dos erros mais cruéis em AR, pois não permite outra solução, senão quebrar a parede e desfazer o equívoco. Com exceção dos cabos de fibra óptica (que não são metálicos), nenhum outro deve sequer passar próximo (menos de 10cm) de um conduíte de energia elétrica, devido à suscetibilidade em sofrer interferência eletromagnética. No caso de cabos de rede (UTP), o sintoma da interferência pode ser o baixo desempenho na transmissão de dados ou até mesmo dano ao roteador, switch ou placa de rede de algum computador conectado. No caso de cabos de áudio e vídeo, o principal sintoma é o ruído (de áudio ou imagem respectivamente).

“Este projeto está com excesso de pontos de rede”

Cuidado, as aparências enganam. Algumas vezes, exageros podem ser benéficos. É impossível prever, na ocasião do projeto, tudo o que poderá ser implementado no futuro, considerando até equipamentos que ainda não foram inventados.Hoje, o cabo UTP (CAT5e/6/7) é utilizado para transmissão de dados entre quaisquer subsistemas TCP/IP (dispositivos de automação, câmeras IP, Audio-Over-IP, VOIP, HD de rede, impressoras de rede, Internet etc.), além de diversas outras aplicações que o utilizam como meio físico de condução elétrica (telefonia, alimentação de baixa potência, interfones, CFTV, sensores de alarme etc.).

Portanto, não se assuste com a quantidade. O cabo UTP é o “coringa” da automação residencial e a tendência é que sua utilização aumente ainda mais no futuro.

“Vamos centralizar todos os equipamentos de áudio e vídeo em uma salinha separada do ambiente de TV”

Em um ambiente sem automação, os equipamentos de áudio e vídeo precisam estar localizados à frente dos usuários, para que possam ser acionados por seus respectivos controles-remotos convencionais (IR) – que, por sua vez, requerem a linha de visada. Quando o ambiente de TV possui automação, os controles-remotos são substituídos por interfaces que não mais requerem a condição da linha de visada. Nesse caso, alguns usuários aproveitam a vantagem para transferir todos os equipamentos para outro local, deixando o ambiente “sofisticadamente limpo”, sem qualquer outro aparelho, além da própria TV. É claro que, tecnicamente, isto pode ser feito pelo cabeamento estruturado tê-lo presenteado com quatro conectores RJ45 atrás da tela (dois para conexão HDMI com o receiver na sala de automação, uma para conexão de Internet no painel e outra para estender o emissor IR proveniente do controlador na sala de automação). Ótimo! Temos uma parede branca com uma TV no meio. Agora, além de perceber que você terá que ir até a salinha quando for colocar um DVD ou CD, pense na parte ruim: suponha que seu tablet quebrou ou sofreu qualquer outra avaria. O que fazer até substituí-lo? Você simplesmente terá que pegar os controles-remotos originais e ficar pronto para comparecer à sala de automação em todos os momentos que precisar utilizar um deles (com exceção do que controla a própria TV, claro). Tente fazer isto sem xingar seu integrador – afinal, não foi ele que exigiu a parede “minimalista”. Portanto, creio que a melhor solução seja colocar os equipamentos no mesmo ambiente (e o mais próximo possível da TV). Entretanto, vamos dizer que, em seu caso, a disposição dos equipamentos em uma salinha separada seja um “requisito” de projeto. O que fazer? Ora, basta viabilizar a utilização dos controles originais como backup. Utilize um sensor infravermelho com extensor, via UTP, até a sala de automação. Trata-se de um dispositivo, também chamado “olho infravermelho”, que pode ser colado à moldura da TV. Ele tem a capacidade de capturar qualquer sinal infravermelho e transferi-lo para outro local, por meio de um cabo UTP (CAT5e/6/7). Assim, o usuário pode utilizar qualquer um dos controles-remotos originais sem precisar sair do sofá, pois o sinal é capturado e transferido até a sala de automação, atingindo os equipamentos através de um blaster ou de emissores individuais. Observe, entretanto, que é necessário haver outro conector RJ45 atrás da TV. Eis aí um bom exemplo do quão importante é não economizar pontos de rede em um projeto de cabeamento estruturado!

“A navegação está meio complicada, mas, com a prática, vou me acostumar”

Este é um problema comum na conclusão de projetos, quando o integrador apresenta a interface ao cliente e tenta convencê-lo de que, “com a prática”, ele se acostumará à navegação. Só que isto não vai acontecer. Uma interface de automação residencial precisa ser a mais intuitiva possível, dispensando qualquer “treinamento”. As interfaces só devem ter os botões realmente utilizados no dia-a-dia, de modo a não sobrecarregar as telas. Lembre-se de que não é proibido utilizar o controle-remoto original, caso seja requerida uma eventual funcionalidade não contemplada na interface de automação. Assim, a melhor forma de avaliar a qualidade de navegação de uma determinada interface é testá-la sem qualquer orientação do integrador. Os itens nos quais você tiver dificuldade serão exatamente aqueles que o integrador terá que refazer. Não faça cerimônia!